janeiro 14, 2012

O sofrimento humano


Já se disse que o sofrimento é a base do nosso crescimento espiritual. Na inspiração poética de Carlos Drummond de Andrade, "a dor é inevitavel, o sofrimento opcional". Para o também poeta Vinicius de Moraes, ''o sofrimento é o intervalo entre duas felicidades".

Fomos criados a partir de ‘molde’ único, o que nos torna esculturas divinas. Com o passar do tempo, necessitamos de limpeza e lapidação de corpo e alma. E esse é um processo que nos causa dor e sofrimento.

Mas a natureza também sofre. Veja as flores, que são podadas a cada ano. Elas choram, mas em cada galho cortado renasce a vida, a esperança e o esplendor do Universo.

O sofrimento humano ajudou a forjar grandes gênios da Humanidade, como o pintor Van Gogh, o poeta e dramaturgo Vladimir Maiakovski, o filósofo alemão Friedrich Nietzsche, o poeta e escritor Fernando Pessoa – e tantos outros. Pois como afirmou o escritor Rubem Alves, “ostra feliz não faz pérola".

Arauto do cristianismo, o apóstolo Paulo exortava:  “Eis por que sinto alegria nas fraquezas, nas afrontas, nas necessidades, nas perseguições, no profundo desgosto sofrido por amor de Cristo. Porque quando me sinto fraco, então é que sou forte” (II Coríntios 12,10).

Mesmo com o sofrimento, sempre existirá um amanhecer em nossa vida. "Uma ocasião, meu pai pintou a casa toda de alaranjado brilhante”, escreveu Adélia Prado, que concluiu: “Por muito tempo moramos numa casa, como ele mesmo dizia, constantemente amanhecendo".

Se há sofrimento, há consolo. “Na ida, caminham chorando, os que levam a semente a espargir. Na volta, virão com alegria, quando trouxerem os seus feixes”. (Salmos 125,6)

(Imagem: Flickr, do álbum de Andrea Vismara)

janeiro 08, 2012

Humildade



A palavra humildade origina-se do latim húmus, que significa ‘filhos da terra’. Todos os grandes sábios e os grandes santos falaram (e uns ensinaram) a grande virtude da humildade. Figuras como Jesus, Buda, Sócrates, São Francisco de Assis, Madre Tereza de Calcutá e tantos outros baluartes da dignidade humana, buscaram tornar o mundo mais justo e mais feliz através da humildade – fator essencial no progresso individual de qualquer pessoa em busca da autolibertação.

Somente os humildes entram no panteão da História de seus países, porque segundo o poeta e tradutor francês Jacques Delille, “não é nos pergaminhos, mas nas almas que os títulos de nobreza devem ser impressos”.

Verdadeiro brasão do ser humano, a humildade não se expressa no rastejar que precede os passos da humilhação, mas em jamais nos julgarmos superiores a nossos semelhantes.

Se pouco conhecimento nos torna tolos e arrogantes, os frutos da sabedoria, ao contrário, nos fazem cada vez mais humildes. O humanista Benjamin Franklin preconizava: “Ser humilde com os superiores é obrigação; com os colegas é cortesia; com os inferiores, é nobreza”.

Devemos sempre recordar as palavras do profeta Isaías para quem, aos olhos de Deus, somos “como uma gota de água num balde, um grão de areia na balança” (Isaías, 40, 15).
 

dezembro 30, 2011

Renovando as esperanças



O alvorecer do Ano Novo traz dúvidas e reflexões. Mas vamos apenas pensar em novas metas e desafios, esquecendo fracassos e frustrações para seguir em frente.
Hoje o tempo não existe. Apenas sonhos e esperanças. Por isto não tenha medo de sonhar “o sonho sonhado”. Planos precisam ser realistas, mas sonhos não. Alicerce da realidade, o sonho sempre transformou e continuará a transformar o mundo. É ele – o sonho – que alimenta a alma.
Impossível sonhar sem ter esperança. Ela é o combustível da vida. Ter esperança é confiar na vitória, mas também estar preparado para a derrota. Precisamos lutar sempre, pois como afirmou Victor Hugo, "a água que não corre forma um pântano, assim como a mente que não trabalha forma um tolo".
Quando desaparece, a esperança faz inútil a vida, pois o homem deixa de sonhar. As realizações alcançadas no ano que termina serão sementes, cuja colheita ocorrerá pelo sucesso no ano que se aproxima. Ele é como um livro em branco, cujas páginas serão preenchidas com a história de nossas vidas.
Deus nos dá o roteiro, mas a direção de nosso destino é responsabilidade nossa. Tudo no mundo se transforma e se renova. "Não se pode entrar duas vezes no mesmo rio, porque as águas que passam dão lugar a outras águas", advertiu Heráclito.
Renovemos então nossas esperanças!

(Imagem: Flickr, do álbum de Anne Marie)

dezembro 24, 2011

Saudades de Laika



Em 22 de Março deste ano – e após pouco mais de uma década de convívio conosco – Laika, nossa cadelinha poodle, nos deixou. Em doze anos ela não apenas nos fez companhia, mas revelou fidelidade e amizade inigualáveis. Qualidades que – parece – nós, seres humanos, temos pressa em fazer desaparecer das relações com nossos semelhantes.
Ao escritor tcheco Milan Kundera se atribui a afirmação de que os cães “são como nosso elo com o Paraíso”, pois não conhecem “a maldade, a inveja e nem o descontentamento”. O autor de A Insustentável Leveza do Ser (1984) faria comparação com “uma volta ao Eden” o sentar-se, numa tarde, ao pé de uma colina ao lado de um cão. Ainda segundo Kundera, não fazer nada no Paraíso não seria tédio, mas paz.
Não nos é possível esquecer as brincadeiras de Laika. Nem suas lambidas em nossas mãos, quando queria subir em nossa cama e estar mais próxima de nós. Dócil no trato, Laika sugeria ternura e paz. Era comovente vê-la ainda tão fiel e amiga, mesmo depois de perder totalmente a visão. Gostava de música, e enquanto morria, uma lindíssima canção coincidentemente tocava na tevê.
Somente pela Fé podemos antever o que se seguirá ao término de nossa história pessoal. Mas seria consolador pensar que, de alguma forma, pudéssemos reencontrar não apenas as pessoas que amamos, mas também os animais de estimação que estiveram conosco. O cão que guia e defende seu dono cego, ou o que se sacrifica para salvar uma vida, vale a perene e grata lembrança humana tanto quanto, para nós, é inesquecível a de Laika. Ela fez mais que nos acompanhar durante parte de nossa caminhada: Laika nos alegrou, foi dedicada e fiel à nossa Casa. E, na sua docilidade e atenção, nos ajudou tantas vezes a superar momentos desfavoráveis.
Há quem diga que ser feliz é ter saúde, razão e um caso de amor. Para nós, ter uma cadelinha como nossa poodle Laika nos ajudou a ter um pouco mais de cada coisa.
(Imagem: Arquivo do autor)

dezembro 17, 2011

A presença de Deus




Ao contemplar o Universo, sentindo o orvalho caindo sobre a humilde relva, ouvindo o canto maravilhoso dos pássaros anunciando o alvorecer de um novo dia, o homem passa a acreditar que Deus existe. Não importa seus nomes – Jesus, Alá, Jeová, Krishna ou Buda. Todos se referem a um poder maior que qualquer um de nós.

A presença de Deus se faz notar na criação através do nada. Só Deus cria no vácuo, só Ele preenche vazios. Só Deus nos faz lembrar que a saudade é a presença de uma ausência. Deus é o Tudo no nada, a abundância na falta.

O filósofo iluminista Voltaire, que chegou a ser tomado por incrédulo, pregava que “uma falsa ciência faz tornar ateu, mas uma verdadeira ciência prosterna o homem diante de Deus”. Pouco antes de morrer em Março de 1778, aos 84 anos de idade, Voltaire declararia por escrito ter-se confessado a um sacerdote, pedindo-lhe o perdão divino por todas as suas faltas, sobretudo “se tenho escandalizado a Igreja.

O escritor Victor Hugo dizia que “Deus é o invisível evidente”. Ele está presente na incrível individualidade de todas as coisas, nada é igual no Universo. Deus é a essência da vida, presente nos diamantes incrustados nas rochas, nas pérolas invisíveis numa ostra marinha, no olhar distante do idoso e no riso angelical de uma criança.

Um belo texto da literatura celta explica a ação de Deus:

“Eu sou o vento que respira sobre o mar / Eu sou a onda do oceano / Eu sou o murmúrio das ondas / Eu sou o raio de sol / Eu sou o salmão na água / Eu sou o lago na planície / Eu sou uma palavra de sabedoria / Eu sou o Deus que faz o fogo na nascente”.

Finalizando: o que é Deus? Resposta de Rui Barbosa: 

“Deus é a necessidade das necessidades".

(Imagem: Flickr, do álbum de Phoenix Ocean)

dezembro 11, 2011

O todo no tudo



O homem busca freneticamente a felicidade desde os primórdios da civilização. Trata-se de uma busca que se tornou estéril, inútil, pois a felicidade não está em outro lugar senão escondida na alma humana. Eterno cativo, o homem é um prisioneiro incondicional de seus pensamentos.

Os cientistas estimam que possam nos ocorrer, diariamente, sessenta mil pensamentos em média. Alguns destes, destrutivos. Como o egoísmo e o medo – velhos habitantes da masmorra de nosso inconsciente.

A pior escravidão é a que existe em nós. Já houve tempo em que o homem não sabia o que queria. Hoje quer tudo. A Humanidade parece padecer de miopia mental e depressão cultural. Ouvimos o barulho das ruas, mas não escutamos a voz do coração. Olhamos a multidão, mas não enxergamos o semelhante ao nosso lado. O acúmulo de informações inúteis produz pouco conhecimento, e praticamente nenhuma sabedoria.

Precisamos encontrar o caminho da autolibertação e do autoconhecimento, o que só é possível pela meditação e contemplação. Cinco séculos antes de Cristo, Pitágoras ensinava: “Aprenda a ficar em silêncio. Deixe sua mente, tranquila, ouvir e absorver”. 

Você não precisa mudar o mundo, mas apenas a forma como o vê. Procure então ver o todo no tudo, ao invés de apenas fragmentos ilusórios da realidade humana. A cadeira em que V. está sentado, um dia foi semente e árvore. E teve que morrer, para que você possa desfrutar de seus benefícios. Mas, lembre-se: seja sempre humilde, como ensinava o autor de Tao Te Chinq – uma das obras fundamentais do taoísmo – , o filósofo e alquimista chinês Lao Tse,: “Todos os rios correm para o oceano porque ele é mais baixo que eles. A humildade lhe dá esse poder”.

(Imagem: Flickr, do álbum de Adrienne)

dezembro 04, 2011

Auto-estima



Único entre os seres capaz de atingir sua plenitude através do autoconhecimento, o ser humano tem na auto-estima a chave inevitável do sucesso. O filósofo e místico indiano Jiddu Krishnamurti (1895-1986) já advertira: “Que nada perturbe a vossa placidez – nada: nem aplausos, nem censuras, nem derrotas, nem sucessos”.

Posso evitar pessoas que conhecem minha verdade, mas não posso evitar a mim mesmo. Existe uma correlação entre “estar bem” e “fazer bem”. As pessoas que apresentam os melhores resultados no que fazem são, geralmente, aquelas que se sentem bem em relação a si próprias.

The Randon House Dictionary define auto-estima como “um grande respeito ou uma impressão favorável de si mesmo”. A auto-estima favorece a que eu seja a pessoa que quero ser. Posso escolher entre ser o senhor do meu destino ou um mero coadjuvante no teatro da vida.

Contrariamente ao que em geral se pensa, a auto-estima não é a valorização do ego, e sim o reconhecimento de que sou importante, apesar dos meus medos e das minhas fraquezas. É o respeito por quem sou, e não pelo que sou. O presente que recebo diariamente é a confiança em mim mesmo.

É necessário, pois, mudar a cada dia, pois se fizer sempre o que sempre fiz, terei sempre o que sempre tive. O pastor e conferencista norte-americano Roberto Harold Schuller escreveu certa vez que “qualquer pessoa pode contar o número de sementes de uma maçã, mas só Deus pode contar o número de maçãs em uma semente”.

(Imagem: Flickr, do álbum de alibubba)